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domingo, 19 de janeiro de 2014

Eugénio de Andrade nasceu a 19 de Janeiro de 1923, faria hoje 91 anos!


ACERCA DOS GATOS


Em Abril chegam os gatos: à frente
o mais antigo, eu tinha
dez anos ou nem isso,
um pequeno tigre que nunca se habituou
às areias do caixote, mas foi quem
primeiro me tomou o coração de assalto.
Veio depois, já em Coimbra, uma gata
que não parava em casa: fornicava
e paria no pinhal, não lhe tive
afeição que durasse, nem ela a merecia,
de tão puta. Só muitos anos
depois entrou em casa, para ser
senhor dele, o pequeno persa
azul. A beleza vira-nos a alma
do avesso e vai-se embora.
Por isso, quem me lambe a ferida
aberta que me deixou a sua morte
é agora uma gatita rafeira e negra
com três ou quatro borradelas de cal
na barriga. É ao sol dos seus olhos
que talvez aqueça as mãos, e partilhe
a leitura do Público ao domingo.

© EUGéNIO DE ANDRADE
In O Sal da Língua

sábado, 18 de janeiro de 2014

Ary dos Santos - 30 Anos depois da sua morte


Os gatos

Gosto do gato do gato gosto
que é animal irracional
de fino gosto.
Tem tanto trato tanta finura
que mata o rato com requintes de ternura.

Gosto do gato do gato gosto
que é animal irracional de fino gosto.
Lembro que um dia na sacada do meu prédio
havia um gato matulão com malapata
amava ele com paixão mas sem remédio
arisca gata porque aristocrata.

Fazia versos de sardinha prateada
ramos de espinhas com cheirinho a maresia
e a gata persa com esmeraldas na mirada
nunca ligava ao carapau nem à poesia.


Gato vadio animal da minha vida
gato com cio confessando-se ao luar
gato telhado esfomeado e sem guarida
e a gata persa que só come caviar.
Gatos de rua eriçados de verdade
lambendo os restos que há no fundo do desgosto
gato Cesário dos poemas da cidade
com olhos verdes que é a cor de que eu mais gosto.

José Carlos Ary dos Santos (1937 – 1984)